Quando o Corpo Fala: A Sexualidade na Psicoterapia Biodinâmica

Porque é que, mesmo após anos de compreensão, insight e trabalho verbal, certos sintomas persistem? Porque é que o corpo continua a reagir onde a mente já “entendeu”? A Psicoterapia Corporal Biodinâmica parte de uma constatação clínica clara: há experiências emocionais — sobretudo ligadas à sexualidade, ao prazer e à intimidade — que ficam inscritas no corpo de forma silenciosa, fora do alcance da palavra. Desde cedo, mensagens de repressão, proibição ou vergonha não apenas moldam a narrativa interna, mas organizam o tónus muscular, a respiração e a capacidade de sentir. Quando emoções não podem completar-se, o organismo desenvolve couraças: estratégias de proteção que preservam a integridade psíquica, mas que, com o tempo, podem limitar a vitalidade, a excitação e a autorregulação. Nestes casos, falar sobre a experiência não é suficiente — porque aquilo que nunca pôde ser plenamente sentido também não encontra facilmente linguagem.
Foi a partir desta questão clínica que a Dra. Beatriz Raposo desenvolveu a sua investigação, no âmbito da conclusão do Curso de Iniciação à Psicoterapia Corporal Biodinâmica – 13.ª edição do IPPC.

Resumo

Este artigo explora a relação entre repressão sexual, formação das couraças corporais e dificuldades sexuais na idade adulta, articulando a perspetiva reichiana com os desenvolvimentos da Psicoterapia Corporal Biodinâmica de Gerda Boyesen. Partindo da compreensão de que mente e corpo formam uma unidade funcional, discute-se como mensagens repressivas na infância, explícitas ou subtis, são internalizadas não apenas cognitivamente, mas também corporalmente. A repressão emocional e sexual manifesta-se na formação de couraças, estruturas defensivas que limitam a expressão emocional e a fluidez energética. Tensões musculares crónicas, alterações respiratórias, rigidez fascial e comportamentos defensivos em situações de intimidade são discutidos enquanto expressões destas couraças, com destaque para o impacto de experiências traumáticas, que podem intensificar a dissociação corporal e comprometer a regulação libidinal.
A Psicoterapia Corporal Biodinâmica é apresentada como uma abordagem que visa dissolver gradualmente estas defesas, apoiando a autorregulação e a reintegração das sensações corporais, ao ritmo de cada pessoa. Inspirada no modelo neo-reichiano, esta abordagem expande o conceito de couraça ao incluir camadas como tecido conjuntivo, vísceras, pele e estrutura óssea. Técnicas como movimento consciente, grounding, respiração terapêutica, observação dos limites corporais e massagem biodinâmica são exploradas como meios para restaurar a vitalidade, promover a ligação ao corpo e facilitar a expressão emocional interrompida. O papel do toque terapêutico, ético, claro e regulador, recebe atenção, dada a sua importância na criação de segurança interna e de consciência corporal.
Por fim, sublinha-se que, apesar da diversidade de técnicas, a essência do trabalho biodinâmico assenta na simplicidade: presença, escuta profunda, confiança no processo e qualidade da relação terapêutica. Estes elementos constituem a base para dissolver padrões estagnados e permitir que o potencial expressivo e vital do indivíduo possa emergir de forma espontânea e integrada.
Palavras-chave: Psicoterapia corporal biodinâmica, sexualidade, couraças, consciência corporal e autorregulação.

Enquadramento Teórico

A psicologia biodinâmica, segundo Boyesen (1976), entende que nascemos com uma personalidade primária, marcada por fluxo livre de energia vital e potencial inato. No entanto, a infância é frequentemente marcada por repressão da sexualidade, e proibições repetidas, gerando sentimentos de culpa, vergonha e medo que contribuem para o desenvolvimento de adultos sexualmente bloqueados e vulneráveis a dificuldades sexuais (Reich, 1973; Resnick, 2004). Por exemplo: “Não faças perguntas”, “Não toques aí”, “Para de olhar para ali” (Baker, 1982). Muitas vezes, a comunicação repressiva é subtil: um olhar de desaprovação, um gesto brusco ou o simples silêncio. Assim, aprende-se, de forma implícita, que a sexualidade é tabu e que certas sensações e curiosidades devem ser evitadas (Resnick, 2004). A nível mundial, as disfunções sexuais são uma preocupação crescente em saúde mental, afetando aproximadamente 40% das mulheres e entre 30% a 70% dos homens ao longo da vida (Vila et al., 2024), por exemplo, falta de desejo, dificuldades de excitação, dor durante o ato sexual e ausência de orgasmo (Ventegodt et al., 2004).
A sexualidade constitui uma dimensão fundamental da saúde psíquica, ligada à capacidade do ser humano sentir prazer, ter uma vida sexual saudável e um orgasmo satisfatório. Essencialmente, cumpre uma função de equilíbrio energético do organismo (Baker, 1982; Reich, 1973). Para Lowen (1980), o prazer é a força criativa da vida. Importa entender como a repressão sexual se manifesta no corpo, já que mente e corpo são uma unidade funcional.

Formação das couraças: o impacto no corpo e na sexualidade

Os estudos Reich (1973) revelaram que o corpo armazena tensões resultantes da repressão emocional e sexual, formando as chamadas couraças, que ocorrem num plano corporal e emocional. Estas couraças atuam como uma proteção psíquica, impedindo o contacto com conteúdos dolorosos ou não integrados pela mente. Reich defendia que a repressão sexual influenciava diretamente a forma e a postura do corpo na idade adulta, e, acreditava que a libido era uma energia real que precisava de ser libertada de forma adequada para que a pessoa não acumulasse tensão (Baker, 1982). Assim, Reich (1973), sugeriu que o corpo fosse dividido em sete segmentos onde poderiam surgir tensões. Estes segmentos funcionariam como anéis que envolvem o corpo à frente, aos lados e atrás, sendo eles o anel ocular, oral, cervical, torácico,
diafragmático, abdominal e pélvico. Deste modo, a couraça representa a interiorização de padrões, proibições e mensagens recebidas desde a infância, moldando a expressão corporal e limitando a vitalidade (Oliveira e Mattos, 2022). A personalidade primária descrita por Boyesen (1976) corresponderia a um estado inicial livre de couraças emocionais, mais aberto ao prazer, à espontaneidade e à expressão sexual, tanto no plano físico como no transpessoal. Quando a pessoa enfrenta dificuldades sexuais associadas à inibição, emoções como medo, vergonha, culpa ou experiências traumáticas tendem a ficar registadas no corpo, que reage defensivamente perante situações de intimidade ou desejo (Resnick, 2004). Segundo este autor, a respiração torna-se limitada e, em vez de permitir a vivência do prazer, a excitação desperta
respostas de contração e medo. Noutros casos, a pessoa pode apresentar uma desconexão significativa do corpo e do momento presente, dificultando o acesso às sensações. Resnick (2004) acrescenta que, quando as emoções sexuais são contidas ou expressas de forma excessivamente controlada, é frequente surgirem tensões persistentes no peito e na pélvis, sobretudo em situações reais ou antecipadas de natureza sexual. Após experiências traumáticas, também a fáscia, um tecido que envolve músculos, órgãos e nervos, pode tornar-se rígida devido a processos inflamatórios. Este enrijecimento comprime estruturas internas, restringe movimentos e pode causar dor ou diversos sintomas físicos (Barnes, 2006). Stirling e Andrews (2022) observam que, em vítimas de assédio ou abuso sexual, regiões como mandíbula e ombros acumulam frequentemente raiva e tensão. Muitas mulheres, no entanto, não têm consciência corporal destas zonas, recorrendo sobretudo à fala em vez do sentir, o que evidencia uma dissociação entre narrativa e experiência corporal. Iloson et al. (2021), na sua revisão sobre somatização e abuso sexual, encontraram um estudo que associa abuso sexual à síndrome do intestino irritável, algo que, hipoteticamente, poderia relacionar-se com o anel abdominal. Esta ligação permite considerar também o papel da peristalse, uma vez que o intestino não apenas digere alimentos, mas também participa no processamento e regulação da tensão emocional, desempenhando um papel essencial na autorregulação (Carroll, 2012).
Se o corpo manifesta a repressão sexual, é também através dele que o reequilíbrio pode acontecer (Rocha e Filho, 2022). Em geral, a literatura aponta para a utilidade de exercícios que conectam a dimensão cognitiva com a experiência corporal através da respiração, massagem biodinâmica, o grounding e movimentos corporais, que visam dissolver estas couraças, restaurando a fluidez energética (Boyesen, 1976; Rocha et al., 2021).

Psicoterapia Corporal Biodinâmica: princípios

A Psicoterapia Corporal Biodinâmica, desenvolvida por Gerda Boyesen na década de 1940, é uma abordagem neo-reichiana que também inclui as noções de couraça. Esta estrutura impede que emoções e energia possam fluir e ser libertadas (Allmer et al., 2009; Arnault & O’Halloran, 2015). Durante o processo terapêutico, o terapeuta recorre a toques específicos e outras técnicas corporais para localizar áreas de rigidez e facilitar a libertação gradual de energia acumulada. Quando a resposta emocional interrompida no passado consegue finalmente completar-se, a pessoa recupera espontaneidade, autonomia e força interior (Boyesen, 1976). Boyesen expandiu a visão de Reich ao integrar outras camadas da organização psicossomática como tecido conjuntivo, ossos, pele, vísceras, indo além do músculo. As suas técnicas caracterizam-se por um toque acolhedor, regulador e paciente, que faz “amizade” com as resistências do cliente (Carroll, 2012).

Intervenção: Movimento, Respiração, Limites e Toque Terapêutico

Estar presente no corpo é fundamental quando se abordam temas de sexualidade e intimidade (Iantaffi, 2011). Uma couraça intensa distancia a pessoa das suas sensações, criando desconforto, insatisfação e perturbações na regulação libidinal (Almeida & Albertini, 2014). O movimento consciente tem um efeito vitalizante, capaz de desbloquear memórias e restaurar o equilíbrio do sistema nervoso (Rocha et al., 2021, Stirling & Andrews, 2022). Ao focar-se no movimento natural do tronco, o cliente percebe onde o corpo estimula ou bloqueia sensações ligadas à sexualidade (Iantaffi, 2011).
Exercícios simples de respiração ajudam ainda a aumentar a tolerância a emoções difíceis, sobretudo em quem nunca pôde falar abertamente sobre sexualidade num espaço seguro (Iantaffi, 2011). Adicionalmente, observa-se os padrões de respiração, identificando onde o corpo está contraído (Resnick, 2004).
A investigação reforça ainda a importância do grounding no acesso a memórias emocionalmente carregadas, de modo a evitar que o cliente se dissocie ou perca a conexão com o presente (Stirling & Andrews, 2022). Recordo-me, durante o curso, da orientação da Dra. Conceição para que algumas alunas mantivessem o contacto visual com ela como forma de ancoragem, tal como a recomendação de não fechar os olhos.
Stirling e Andrews (2022), descreveram também um exercício com rolos de espuma, no qual o cliente posiciona a pélvis sobre o rolo e realiza movimentos para a frente e para trás. Frequentemente, relatam alívio, percebendo que evitavam mobilizar essa zona devido ao impacto de traumas passados. Este conceito remeteu-me para rolo da bioenergética aprendido no curso.
Na psicoterapia tradicional, o contacto físico, mesmo quando ético e profissional, tende a ser evitado. Contudo, integrar o corpo e, quando apropriado, o toque no processo terapêutico pode ampliar significativamente a consciência corporal do cliente, segurança interna e autorregulação (Iantaffi, 2011; Staunton, 2012).
Por fim, na intervenção das couraças, Boyesen introduziu a massagem biodinâmica como complemento ao processo terapêutico, permitindo explorar e aliviar sintomas psicossomáticos através da autorregulação, da expressão e da consciência corporal (Carroll, 2012, Garbini, 2022). O processo é cuidadoso, porque a libertação de tensão acumulada pode desencadear reações emocionais espontâneas ou respostas fisiológicas como suor, náuseas, ou erupções cutâneas (Carroll, 2012).

Conclusão

Apesar de os temas variarem, emergem sempre os mesmos pilares terapêuticos na minha pesquisa sobre psicoterapia corporal biodinâmica: a presença, a escuta profunda, o retorno à respiração e a compreensão de que muitas vezes “menos é mais”. Há uma simplicidade profundamente humana neste trabalho e, precisamente por isso, tal como em qualquer forma de terapia, a qualidade da relação terapêutica é central. Mesmo quando o foco é a sexualidade, o objetivo último é sempre o mesmo: facilitar a libertação, apoiar a autorregulação e respeitar o tempo, o ritmo e a vontade de cada indivíduo. Trata-se de reconhecer padrões que ficaram estagnados e criar condições para que possam dissolver-se, permitindo que um novo potencial emerja (Boyesen, 1976). Esta jornada assenta que integrar o corpo é fundamental.
Segundo Resnick (2004), falar sobre o problema raramente é suficiente para desfazer bloqueios tão profundos que ficam inscritos no sistema nervoso e na musculatura. Torna-se difícil verbalizar aquilo que nunca foi plenamente sentido ou para o qual a pessoa ainda não possui uma linguagem interna. Gerda Boyesen (2001) é muito clara ao afirmar que precisamos permitir que o corpo faça aquilo que ele próprio sabe fazer. E é exatamente isso que levo deste percurso: a importância de confiar no corpo, no processo e no potencial humano. Termino sentindo-me profundamente agradecida pelas experiências que vivi e pelas pessoas, colegas e formadoras, que contribuíram para esse caminho, ensinando tanto através da simplicidade e da presença.

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Escrito pela Drª Beatriz Raposo, finalista do Curso de Iniciação à Psicoterapia Corporal Biodinâmica – 13ª edição do IPPC.

Formação dirigida a profissionais da área da saúde mental.
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