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“Está na altura de por a saúde mental em primeiro lugar”

A frase é de Simone Biles, ginasta norte-americana que aos 19 anos já fazia história, com 5 subidas ao pódio nos Jogos Olímpicos de 2016, e foi esta semana tema de debate na imprensa e nos telejornais. A notícia é o facto de ter desistido do que resta dos Jogos Olímpicos em prol da sua saúde mental:

“Tenho de me concentrar na minha saúde mental e não pôr em risco o meu bem-estar. Temos de proteger o nosso corpo e a nossa mente. É horrível quando se luta contra a própria cabeça”, disse aos jornalistas.

Declarações importantíssimas de Biles (e que lançaram o debate)

A vida é mais importante do que a ginástica. Temos de proteger as nossas mentes e os nossos corpos em vez de apenas irmos fazer o que o mundo espera que façamos.”

A decisão e as declarações de Biles catapultaram para o espaço público o debate, em específico, sobre a importância da saúde mental nos atletas de alto rendimento; o que poderá significar também a abertura da conversa sobre o estigma geral à volta do tema

O que dizem os especialistas sobre a saúde mental

Ouvindo especialistas na matéria, como Ana Bispo Ramires, a psicóloga clínica do Comité Olímpico Português contou ao Expresso que Biles poderá “estar a lidar com o “estigma de super-herói” por não estar a ser capaz de reproduzir em competição o que consegue em treino; o que “resulta numa pressão esmagadora que, na hora da verdade, pode transformar o desempenho em caos”.

Mas a pressão nunca vem apenas do próprio atleta, diz Ramires, sendo estes condicionados pelo exterior:

“As projeções dos media ou de um ‘país’ colocadas” sobre os atletas podem desencadear um de dois comportamentos: um desempenho “brilhante”, em que são capazes de “ativar o modo flow”, quando entram naquele estado in the zone como tanto dizem os falantes de inglês; ou um desempenho caótico, quando “não conseguem lidar com a exigência colocada sobre si próprios”.

Outro especialista, Jorge Silvério, em declarações ao jornal Público, não tem dúvidas sobre as causas da ausência de discussão sobre o assunto: entre escolher se o tema é “raro porque os atletas costumam estar bem preparados mentalmente ou raro porque preferem sofrer em silêncio”, o psicólogo do desporto refere o seguinte: 

“É claramente a segunda opção. E não só sofrem em silêncio como o fazem para não dar parte fraca. Eles acreditam que mostrar essa fragilidade os torna mais fracos”.

E a discussão é importante porque ajuda a desbravar caminho para que outras pessoas (e atletas) na mesma situação não se sintam sozinhas e, com isso, possam encontrar apoio mais rapidamente.

“Pode claramente ajudar outros a fazerem o mesmo. Um ícone como ela assumir isto tem muito peso. Não é por acaso que há alguns anos não se falava de saúde mental nos atletas. Agora, será muito mais fácil para outros assumirem estes problemas, porque eles pensam sempre que são os únicos, mas depois veem que até os super-atletas passam por isto”, conclui, ao Público, Jorge Silvério.

Não havendo dados exactos sobre quantos atletas olímpicos sofrem de questões de saúde mental, é claro que a maior parte deles deveria ter acompanhamento e apoio mental. Quem o diz é Naresh Rao, médico-chefe da equipa de polo aquático norte-americana e membro dos comités olímpico e paralímpico norte-americano. 

Há muitos anos, o guarda-redes histórico Gianluigi Buffon escreveu uma carta a si mesmo, no início da carreira, para o caso de se encontrar numa situação de debilidade mental. Na carta dizia: “Em poucos dias vais receber três coisas muito viciantes e também muito perigosas: Dinheiro, fama e o trabalho dos teus sonhos. E estás a pensar: o que há de perigoso nisto?” A resposta, na mesma carta, era a seguinte: “A tua rotina tornar-se-á na tua prisão. Vais treinar, voltas a casa, vês televisão. Vais dormir. Fazes o mesmo no dia seguinte. Ganhas; perdes; repetes… e repetes.”

A vida dos atletas, como vemos, vai para além das competições. Os eventos de vida traumáticos (como o abuso sexual que Simone Biles e outra atletas sofreram por parte do médico da equipa olímpica Larry Nassar) estão presentes na mente e no corpo de quem os experiência. Essas experiências potenciam decisões, conscientemente ou inconscientemente, e também resultados.

E o que devemos concluir com todas estas declarações? 

Podemos pensar que as pessoas que desempenham trabalhos normais não enfrentam pressão e ansiedade tão intensas e, por isso, a saúde mental não sofre tanto; mas esse pensamento não é certo: cada pessoa tem as suas vivência e questões por resolver. Se as pessoas que ultrapassam uma das principais preocupações da população – a estabilidade económica e o acesso ao conforto – têm problemas de saúde mental, falam sobre isso e procuram ajuda, por que razão não deveríamos todos fazer o mesmo?

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