Vivência na primeira pessoa, da primeira saída de casa após 23 dias de isolamento voluntário. Uma saída de pouco tempo mas que se revelou muito intensa e com sentimentos muito diferentes consoante as circunstância/meio.

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 23 dias depois saí de casa pela 1ªvez. Entrei no carro, sentei-me e fui invadia por uma sensação maravilhosa: como é bom estar neste carro, que cheirinho bom que tem. Fiquei algum tempo a saborear. Eu não sabia que tinha saudades do meu carro. Comecei a viagem e o sentimento de saudades da viagem, daqueles 100km diários para ir trabalhar, chegou. Como eu gostava de ir ver como estão as cidades onde trabalho, o cheiro, o ritual do café antes de começar… Mas não, apenas era uma viagem de 5km até à farmácia. Saboreei cada segundo desta viagem. Eu não sabia que tinha saudades. O sentimento de saudades saudáveis e gratidão, de dar valor a tudo o que tenho (até os 100km que tanta vez senti serem demais) continuou até chegar à farmácia.

Parei o carro em frente à farmácia, na rua estavam 3 pessoas à espera da sua vez. Fiquei ali, sentada dentro do meu maravilhoso carro a aguardar a minha vez e a observar. As pessoas conversavam tranquilamente, havia até quem reclamasse porque lhe tinham dito que não deveria ser ela a ir à farmácia porque é uma pessoa de risco. Tudo parecia normal.

Poucos minutos foram precisos para, de repente, ser invadia por medo e pensamentos de desconfiança – vou entrar ali? Naquele sítio onde entram e saem tantas pessoas? O que tenho de fazer? Não me posso esquecer que não posso tocar em nada… Foram segundos ou minutos, não sei. Sei que o meu corpo se contraiu, a minha respiração ficou suspensa, os meus sinais de alerta todos ativos. Dei-me conta do que estava a acontecer, tenho essa facilidade. Permiti-me acolher o que estava a acontecer e usei estratégias para voltar ao normal e poder, quando chegasse à minha vez, entrar na farmácia. Quando chegou a minha vez entrei calmamente, sentia-me mais confiante.

Saí, sentei-me no carro respirei novamente profundamente, acolhi o pensamento “afinal correu tudo bem”, sorri de mim e da minha experiência, há sempre uma primeira vez!

A viagem de regresso já não foi a de saborear o prazer, mas a descarga daquele momento de tensão anteriormente vivido.

Um terceiro momento ainda fez parte desta viagem, o chegar a casa. O ritual que todos falam e que eu ainda não tinha experienciado. Despir a roupa na primeira divisão de casa (até a minha filha mais nova, com ar de espanto, diz “ó mãe o que estás a fazer?), banho, roupa a lavar. Não, não gosto deste ritual. Por fim, o regresso à atual normalidade, sentir a proteção e o prazer de estar na minha casa, o cheiro da minha casa. Dei tempo a este sentimento de segurança.  Voltei a sentir o meu corpo a relaxar, a minha respiração normal sem paradoxo. Acabámos (sim todos cá em casa) o dia a dançar. Fizemos uma saída até um destes concertos maravilhosos que os artista estão a partilhar na net. Foi tão bom!

Tudo isto aconteceu ontem, hoje acordei a sentir que tive um sono reparador, sinal de que a experiência de ontem foi integrada no meu ser sem deixar estragos.

Poderia agora descrever-vos teoricamente tudo o que senti, mas não o vou fazer, não hoje, aqui neste espaço e só por um motivo: escreve a pessoa que vivenciou e que mobilizou os recurso internos para cada momento da vida. Este recursos/ferramentas, esses sim foram aprendidos ao longo da vida e do percurso profissional e vou descrever-vos em forma de resumo.

 

 1. Pensamentos: no primeiro momento observe os pensamentos sem os questionar, eles vêm e vão como as folhas das árvores no outono que ao sabor da brisa caem.

2. Respiração: como sente a sua respiração? Inspire e expire profunda e lentamente.

3. Os sentimentos: os pensamentos traduzem sensações e as sensações vivenciam-se no corpo. Como sente o corpo, leve o seu foco ao corpo. Qual a parte do corpo mais presente e menos presente.

4. Faça algum movimento, mesmo que suave (p.e. esticar as pernas e os braços), acompanhado de consciência na respiração.

5. Observe agora novamente os pensamentos e sentimentos. Mais calmo? Voltou a ficar com medo ou ansioso? Se sim, volte para o foco na respiração e na parte mais e menos presente do seu corpo.

6. Por último, quando estiver num espaço que sinta que é um local seguro (a casa, o carro…) dê-se tempo para que o seu corpo se recupere, é assim que o seu corpo encontra a autorregulação.  Respire e simplesmente fique em observação serena desse espaço seguro. Se possível, faça algo que lhe dê prazer (pode ser ouvir uma música que goste muito) e desfrute do momento, desse seu momento.

7. Partilhe a sua experiência: Fale com alguém de sua confiança e que saiba escutar. É importante falar sobre a experiência. Se sente que não tem ninguém ligue a um profissional de saúde mental.

8. Observe como se sente ao acordar. Sente que o sono foi reparador? Sente-se cansado/a? Tem um dormir que sente como ‘agitado’? Estes são alguns sintomas de que pode não estar a integrar a experiência.

 

Despeço-me desejando que cada um de vós se mantenha em saúde mental, para que o ‘depois do COVID-19’ possa ser o mais saudável possível e que sejam pessoas com os novos valores de responsabilidade social e ética mais aprofundados.

 

Até breve,

Conceição Marques-Silva

 

Informações úteis:

Covid-19 | Linha de apoio em Saúde Mental – Centro Hospitalar Barreiro Montijo – http://www.chbm.min-saude.pt/ . Para os utentes está disponível uma linha de atendimento diária, das 9 às 20 horas (Telefone geral 212147300, extensão 5012). A Linha Saúde 24 também passou a disponibilizar apoio psicológico 808 24 24 24 (opção 4)

 

Informação da Ordem dos Psicólogos Portugueses: https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/intervena_aao_psicologica_distancia_durante_pandemiacovid_19.pdf .


1 comentário

Maria Ana Rocha · Abril 20, 2020 às 3:04 pm

Uma saudação cordial à Dra. Conceição Marques Silva e parabéns pela publicação do seu artigo “e depois do Covid-19? Relato na primeira pessoa.” Revi-me bastante nas suas palavras e neste momento penso que é muito importante haver quem dê palavras de conforto e segurança para sabermos como lidar com o medo que esta situação de pandemia gera.

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